Por Archidy Picado
Inúmeras têm sido as tentativas – nem sempre válidas – de uma verdadeira exegese da estranha e enigmática poesia eliotiana. Seu eruditismo tão vasto vai do simbolismo francês até as mais recônditas fontes clássicas, além de estruturas semânticas criadas a partir de diálogos ora triviais ora plenos de significações patéticas.
A influência do poeta – não menos complicado – Ezra Pound, ao lado do contagiante clima de profundas transformações estéticas ocorridas nos meios literários do primeiro quartel do século XIX, forneceram-lhe as sementes que haveriam de germinar no seu encantado embora paradoxalmente estéril mundo, do qual é espectador e participante ao mesmo tempo.
O que seria exatamente a corrente de eventos a que se referia o poeta? Para Eliot, o processo mesmo de construção de seus mitos é o que importa na realidade. Um relato poético-lógico, de feições puramente verossímeis ou, por outro lado, líricas e de rápida e fácil comunicação, não caracteriza a poemática de T. S. Eliot. Se examinarmos a época, ou o momento histórico, na qual sua arte foi produzida, não hesitaremos em proclamá-lo um autor de raro e extraordinário talento. Como todos os gigantes da arte, ele soube se portar como um profeta, um arauto de um futuro sombrio que se torna cada vez mais presente nos dias de hoje. Seu valor reside na universalidade de suas mensagens.
Os homens de Eliot são semelhantes aos impotentes personagens de Albert Camus. Como também, no romance de Joseph Conrad, “The Heart of Darkness”, ao Senhor Kurtz –morto. O mundo agoniza e finalmente expira, mas “não como uma explosão e sim com um suspiro”. Nest’A Terra Devastada nada germina. É preciso que alguém, dotado de algum poder mágico, preencha este vazio com os seus sonhos e reminiscências, as quais não passam de meras sombras. Quem seria capaz de estender uma mão misericordiosa aos homens ocos? A vida terá de ser longa porque Teu é o Reino. No Satyricon de Petrônio, Eliot encontra um correlativo objetivo que fundamenta a sua ânsia de libertação: “Pois com meus próprios olhos vi em Cuma a Sibila, suspensa dentro de uma ampola e quando as crianças lhe diziam: Sibila o que queres? ela respondia: Quero morrer”.
Na primeira parte do longo poema A Terra Devastada, o enterro dos mortos faz lembrar as palavras do Cristo ao dizer que se devia deixar os mortos enterrarem seus mortos. Os homens têm sede de eternidade, seja de que maneira for. A nefasta idéia de se tornar uma sombra entre multidões que atravessam a Ponte de Londres, ou qualquer outro lugar, se torna abominável. A célebre vidente, que com seu suspeitoso baralho nada vê que não sejam imagens que terminam em círculos de pessoas que nada significam. Nem mesmo aquele que se destaca dos que caminham sem saber exatamente para onde, nem mesmo Mylae, escapa de sua hipócrita condição humana: “Oh! Tu – como nos conhecemos – Tu! Leitor hipócrita – meu semelhante – mau irmão!”.
Os três temas dominantes em toda a obra eliotiana são: o nascimento (não meramente biológico), o amor (não a lascívia) e a morte espiritual. Quanto a base antropológica do poema, ou sua fecunda ideação, representa uma função positiva, porque nos evoca certo senso de unidade que é de extrema importância a uma possível redenção humana. Em relação às notas explicatórias, que tentam evitar um possível abismo entre o autor e os seus leitores, devido, em grande parte, a idéias e símbolos, lançados aparentemente ao acaso, num verdadeiro labirinto de sensações desassociadas, apelam mais para o nosso senso filosófico do que propriamente para a nossa sensibilidade – eis aí um elemento imprescindível à apreciação da arte em geral. A lógica em arte não deverá ter a frieza de uma geometria euclidiana. O que seria das artes sem os seus símbolos e mitos? Entretanto, não queremos afirmar que sem a decifração dos seus ocultos significados a arte se torne incomunicável.
Sem dúvida, nos parece notável a observação de Ivan Junqueira em nos esclarecer, em seu magnífico estudo introdutório às traduções da obra de T. S. Eliot, a extrema musicalidade do poeta, com ou através de ocorrências temáticas e de arranjos contrapontísticos.
Ao lermos A Terra Devastada, verificamos que o tema inicial é a morte dos que já se acham mortos, uma morte sem ressurreição, o pavor, a ansiedade conduzida a um paroxismo desintegrador, o medo de não se encontrar um só oásis neste deserto imenso da alma humana.
Imagens da infância, autoconsciência, transitoriedade, atos que não ousamos desenterrar por vergonha de nossa torpe e falsa condição. A busca inútil de um prognóstico alentador, apresentado sem a menor cerimônia, inescrupulosamente, num simples horóscopo, talvez publicado num periódico qualquer ou enviado pelo correio. No segundo poema, Uma Partida de Xadrez, somos como peças em mãos de jogadores inábeis e descuidados, onde, a qualquer momento, podemos levar um xeque-mate. A batida na porta poderá ser um mau presságio, alguém que nos perturba a incessante vigília; mas é tarde, o tempo urge, é preciso que completemos todos os nossos compromissos sociais para finalmente desejar de forma inteiramente casual um boa-noite a todos os nossos anfitriões.
Os cultos de vegetação, rituais de fertilidade, simbolizam a harmonia da cultura humana com o ambiente da natureza. A unidade, esta sim, deve prevalecer sobre o caos. O sexo (apesar dos arquétipos ou inconsciente coletivo de que nos fala Carl Jung), como puro instinto, ao promover uma efêmera satisfação puramente fisiológica, nos causa finalmente acídia e inquietação a constantes questões irrespondíveis. As referências antropológicas do poema reduzem o sentimento religioso a um hábito dos povos, assim como, de um ponto de vista sociológico, atendem a uma dupla aspiração dos homens, isto é, o eterno desejo de perpetuidade e aos interesses dos que legislam os costumes através do poder dominante. Seria realmente o princípio da sabedoria o temor de que nos fala o autor da Terra Desolada?
Para Balckmur, a poetização eliotiana é um ambiente de formas não discursivas, e não um corpo de proposições; isto talvez queira significar que estas formas sejam indefinidas, ruínas, como o próprio Eliot afirma, fragmentos poéticos retirados do lixo da cultura ocidental, embora transformados pelo seu domínio criativo extraordinário. N’A Terra Devastada ouve-se uma palavra de denso significado e que possivelmente constitua uma revitalização de seu árido solo: shantih shantih shantih, que traduz um estado de beatífico e transcendental cuja explicação seria absolutamente inútil.
Thomas Stern Eliot demonstra, de modo insofismável, a continuidade dos valores estéticos através dos tempos, sem irrupções originais, rompendo bruscamente com a tradição, embora ultrapassada em suas estruturas, perene em essencial imaginatividade criadora. Eliot resume o que houve e há de mais legítimo na cultura humanística do mundo.
A Terra Desolada que melhor representa a mensagem do autor não constitui o fim de uma era, como afirmara certo crítico norte-americano, mas, muito pelo contrário, o início triunfante de novas formas poéticas pós-simbolistas e uma alerta, magnificamente bem construído, de um profético criador que, apesar de seus desapontamentos e desilusões, aguarda a redenção de uma perigosa decadência do alto e dignificante nível no qual devem permanecer os homens de todas as nações, de uma terra que ainda poderá vir a ser a Terra da Promissão.
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Publicado no Correio das Artes, em 04.07.82
OBS: Archidy sempre comentava que Terra DESOLADA seria uma tradução mais apropriada e poética do que Terra DEVASTADA para “The Waste Land”. Aqui ele usa a tradução oficial, embora em alguns momentos fale em Terra Desolada. Seria proposital? (Madalena)
(Revisado: Madalena – 13.04.09)
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