Archidy Picado

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Por Arthur Cantalice

É muito comum, nestas circunstâncias, ao dizermos de uma pessoa que se foi, sempre nos determos em enaltecê-la subjetivamente. Para mim, é como se fossem palavras em vão, lançadas ao vento, principalmente em se tratando de um artista polivalente, de personalidade tão forte e tremendamente complexa.

Eu não me atrevo a falar da pessoa Archidy Picado. Narrarei fatos ocorridos com nós dois, como por exemplo, quando freqüentávamos os bancos do “Jardim de Infância” do Colégio da Sagrada Família (hoje Colégio Estadual de Jaguaribe), na Rua Frei Martinho, em frente à casa do Tenente Picado (o pai dele era oficial músico-maestro da Banda de Música do 15º Regimento de Infantaria). Nesta época, tínhamos 4 anos de idade, quando começamos a fazer nossos primeiros desenhos com lápis de cor, nossas primeiras pinturas com aquarela e nossas primeiras colagens e montagens com tiras de papel colorido.

Lembro-me, também, da Sociedade Cultural Juvenil que fundamos, juntamente com Hugo Abath, Marcus Odilon, Josival Cavalcanti, Lamartine Holanda e outros, todos, aproximadamente, com idade de 14 anos. Esta sociedade funcionava na Rua General Ozório, no térreo de um sobradão antigo, em frente ao Convento de São Bento, pertencente ao Conservatório Paraibano de Música, que ocupava apenas o primeiro andar. A direção do Conservatório estava entregue ao Tenente Picado. A sociedade editava um jornal semanal, impresso nas oficinas de A União, no seu antigo e lindo prédio à Praça João Pessoa, graças à eficiente ajuda de um seu humilde gráfico, hoje artista plástico nacionalmente consagrado: Ivan Freitas! A nossa pequena Paraíba ainda não pensava em Universidade.

Já àquela época, a Sociedade emergia inovadora e revolucionária com as suas aulas de nu artístico. A corajosa modelo era uma violinista de mão cheia, inteligente e bonita: Isolda Mesquita! Havia, ainda, calorosas reuniões artísticas e políticas, todas as quintas-feiras. Nestas ocasiões, como querendo apaziguar os ânimos exaltados, ouvíamos Archidy tocar Bach e Beethoven, no piano do Conservatório.

Essas nossas experiências muito nos serviram um decênio depois, quando, juntamente com Breno Matos, Vanildo Brito, Raul Córdula e Hildebrando Assis, fundamos o Setor de Artes Plásticas da Universidade da Paraíba, que ainda não era Federal. O Reitor, pessoa culta e amante da arte, Professor Mário Moacyr Porto, hoje injustamente esquecido, teve um empenho todo pessoal e decisivo, nos primeiros passos da Universidade, pelo aprimoramento e pela difusão das artes plásticas na Paraíba.

Permanecemos na Universidade, atuando nessa área artística, durante os reitorados de Guilardo Martins e de Humberto Nóbrega. O professor Lynaldo Cavalcanti, resolvendo mudar tudo, direcionando a nossa Universidade basicamente para a tecnologia, esqueceu as artes. Lá se foram a Galeria de Arte Pedro Américo, que funcionava no térreo do prédio da antiga Escola de Engenharia, em frente ao Cinema Municipal, e todo um trabalho de mais de vinte anos em prol das artes plásticas. Graças a Deus, a semente ficou e o melhor exemplo disto tudo é a efervescência atual das artes plásticas na nossa comunidade: podemos observar vários artistas vivendo exclusivamente de seus trabalhos e inúmeras galerias de arte com um calendário de exposições constantes para todo um ano.

A inauguração dessa Galeria, homenageando merecidamente Archidy Picado, nos permitirá poder continuar “convivendo” com ele por mais tempo, pois, podem ter certeza, este é o ambiente em que ele mais se sentia a vontade.

(Arthur Américo Siqueira Campos CANTALICE   –   Apresentação da Mostra Retrospectiva e Inauguração da Galeria de Arte Archidy Picado, na Fundação Espaço Cultural, em  22 de março de 1985)

(Revisado: Madalena – 17.04.09)

Por Arthur Cantalice É muito comum, nestas circunstâncias, ao dizermos de uma pessoa que se foi, sempre nos determos em enaltecê-la subjetivamente. Para mim, é como se fossem palavras em vão, lançadas ao vento, principalmente em se tratando de um artista polivalente, de personalidade tão forte e tremendamente complexa. Eu não me atrevo a falar…

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