Sérgio de Castro Pinto
Conheci-o na casa de Geraldo Carvalho, autor do conto “O Menino Azul” e de ensaios pioneiros sobre produção literária paraibana. Geraldo foi o mentor das “Edições Caravelas”, de características artesanais, cuja principal tarefa consistia em retirar do limbo, do ineditismo, autores como José Leite Guerra, Maria José Limeira e o próprio Archidy Picado.
A casa de Geraldo, situada na Avenida Vasco da Gama, mostrava-se uma espécie de núcleo de convergência e de divergências de muitas gerações. Lá, para combatermos a União Brasileira de Escritores, presidida por Otacílio Cartaxo, o velho, fundamos a União Paraibana de Escritores. Há uma foto que registra a primeira reunião da UPE, com ata e todos os rituais que envolvem a criação de uma entidade. Na foto, ao redor da mesa, estamos todos nós: Jurandy Moura, Morise Gusmão, Wilton Veloso, Geraldo Carvalho, Archidy Picado, Vanildo Brito e eu. Destes, exceção feita a mim e a Vanildo Brito, todos já se foram levados pela “iniludível”, pela “indesejada das gentes”. A foto é da década de 60. Trinta anos depois, valho-me do tema do ubi sunt, espécie de recorrência temática da lírica bandeiriana, sobretudo em “Profundamente”, para evocar o passado quase remoto:
“(…) Hoje não ouço mais vozes daquele tempo
Jurandy Moura
Morise Gusmão
Wilton Veloso
Geraldo Carvalho
Archidy Picado
Onde estão todos eles?
Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente”.
Quanto a Archidy Picado, talvez tenha sido – e certamente foi – o primeiro a disseminar o Concretismo na Paraíba. E o fez de modo a não cavar nenhum fosso entre a teoria e a praxis. Tanto que publicou “A Máquina” – lançado pelas “Edições Caravelas” – , cujos poemas denotam pelo menos uma das muitas frentes em que atuou: as artes plásticas. Alias, ele não poderia ficar alheio ao conteúdo programático do Concretismo, pois o apelo visual – uma das características dessa corrente da lírica brasileira – coincidia com a concepção de mundo do artista plástico Archidy.
Em outras palavras, se muitos engrossaram as fileiras da Poesia Concreta por uma questão de modismo, Archidy Picado se mostrava um concretista congenial, para não dizermos um concretista avant-la-letre. E embora fosse um autor bissexto, às vezes dispersivo, vivia a literatura em regime de dedicação exclusiva. Com relação a Archidy, posso empregar as mesmas palavras das quais me utilizei para discorrer a respeito do fazer poético de Sitônio Pinto: nem sempre o autor de uma produção copiosa dedica tempo integral à literatura. Do mesmo modo, o poeta bissexto nem sempre é um poeta incidental, uma vez que a sua obra, mesmo reduzida, pode ser fruto de uma reflexão constante sobre a fenomenologia poética. Archidy enquadra-se nesse segundo caso, pois autor de apenas um livro, os poucos poemas que veiculou concentram, na sua grande maioria, uma flagrante consciência do ofício de poeta.
Foi pouca ou quase nenhuma a minha convivência com o homem Archidy Picado. Os encontros esporádicos, embora em mesa de bar, foram contudo suficientes para que eu conhecesse seu caráter inteiriço, sólido, que não tergiversava quando as circunstâncias exigiam uma tomada de posição corajosa diante da vida. Mesmo já corroído pelo álcool, portava-se com dignidade que falta a muitos que se mantêm sóbrios por uma existência inteira.
Vez por outras assim mesmo através de amigos comuns, enviava-me textos para publicação no “Correio das Artes”. Jamais me entregou pessoalmente qualquer colaboração. Esta, talvez, uma de suas idiossincrasias. As outras que as revelem os amigos mais próximos, a exemplo de Vanildo Brito, Raul Córdula, Cláudio Limeira.
O certo é que, embora tenha acompanhado passo a passo a Geração 59, o Grupo Sanhauá e outros movimentos da província, Archidy em nenhum momento se deixou contagiar pelo sentimento grupal que grassava nos anos 60. Manteve-se arredio, à margem, tal e qual o sapo cururu bandeiriano, que outra coisa não é senão uma espécie de persona de Bandeira e uma projeção do próprio Archidy.
“Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
verte a sombra imensa;
Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo cururu
Da beira do rio…”
(Sergio de Castro Pinto (Jornal O Norte, 11.03.1995, na comemoração dos 10 anos da Galeria de Arte Archidy Picado)
(Revisado: Madalena – 16.04.09)
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