O despertar da Modernidade

3–4 minutos

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Por Raul Córdula

Ninguém foi tão cobrado na João Pessoa de sua época por suas atitudes pioneiras, suas propostas criativas e interferências no olhar complacente da classe dominante, do que o pintor e poeta Archidy Picado. Pouco conheceu das glórias devidas a sua arte. Pouco se escreveu ou se pesquisou sobre sua obra pictórica ou literária, até porque ele não freqüentou nem prestigiou o mercado formal da arte. Sua obra, pequena diante da sua ansiedade de criar, pertence hoje a seus familiares e a seus amigos fiéis.

Ninguém foi, porém, mais generoso do que ele. Acolheu na casa de seu pai, no bairro de  Jaguaribe, onde tinha seu ateliê, toda uma geração de vinte anos, jovens artistas ávidos de suas idéias e das informações sobre suas idas-e-vindas ao Rio de Janeiro para freqüentar os cursos livres de arte do Museu de Arte Moderna, foco da atualidade da arte brasileira na década de 50. No MAM, seus mestres principais foram Ivan Serpa e Faiga Ostrower.

A homenagem que o II FENART presta a Archidy Picado é importante e necessária para que seja realizado um dos principais objetivos da instituição cultural: mediar a produção artística local com a população, e nisso devemos incluir com prioridade os jovens interessados em arte.

Esse acontecimento destina-se a ser um resgate do período de nossa cultura em que João Pessoa descobriu a modernidade e se destacou como um centro de produção cultural, condição que mantém até hoje, caracterizado pela universalidade de seu produto expressivo, mesmo que para isso tenham seus artistas que nadarem contra a correnteza alimentada pelos que mantêm no poder as tradições menos progressistas. 

Abrir esse baú de prata em que se transformou a vida e a obra de Archidy é como mobilizar as atenções do público para uma geração de artistas e pensadores responsável pela introdução no cotidiano da Paraíba da pintura e do texto modernos e vanguardistas, das discussões entre forma e conteúdo oriundas dos movimentos concreto e néo-concreto, da poesia visual como, por exemplo, o Poema Processo, do teatro do absurdo e as outras vertentes do teatro atual, da questão do regionalismo versus universalismo, da consciência ecológica, da cultura de massa, da crítica de arte, de Aruanda e o cinema novo, dos conceitos de urbanismo, arquitetura como conhecemos hoje, da preservação da qualidade de vida, do rock and roll, das políticas culturais e de tantas outras coisas que propiciaram a visão de mundo que temos agora.

Nada mais pertinente, portanto, que essa homenagem revele ao público paraibano o artista e o homem Archidy Picado. Foi montada uma exposição de suas pinturas e seus textos, e uma série de painéis com a iconografia referente a ele, seu tempo e seus pares na aventura de criar. Uma mesa redonda composta por intelectuais e amigos discute sua vida e sua obra. Tudo isso está acontecendo em torno da galeria de arte do Espaço Cultural José Lins do Rego, que tem seu nome e que comemora dez anos de existência (estamos há dez anos do seu desaparecimento). Essa galeria, ou melhor, o Departamento de Artes Plásticas a qual ela está ligada, tendo à frente o artista plástico Diógenes Chaves, tem mantido um programa de trabalho exemplar a partir da mostragem e discussão da arte atual, a exemplo do que foi o Núcleo de Arte Contemporânea da UFPB, estudando e debatendo cada exposição apresentada, fazendo com que percam o caráter eventual, ou apenas comercial, já que esse é um trabalho educativo, e adquiram um caráter referencial. Expõe-se na mesa redonda sobre sua vida e obra, entre outras coisas, como foi sua intervenção na cena cultural paraibana. Archidy, certamente, não foi o pioneiro da modernidade na Paraíba, mas ele foi o artista que despertou nos artistas plásticos de trinta anos atrás, assim como no ambiente universitário da época, as esperanças numa cultura livre, numa arte liberta das amarras acadêmicas, que faziam dela um simples apêndice da sociedade, e não sua expressão verdadeira como toda produção artística precisa ser.

*Apresentação do evento Homenagem a Archidy Picado, II Festival Nacional de Arte – II FENART – Espaço Cultural José Lins do Rego – João Pessoa, 1995

Por Raul Córdula Ninguém foi tão cobrado na João Pessoa de sua época por suas atitudes pioneiras, suas propostas criativas e interferências no olhar complacente da classe dominante, do que o pintor e poeta Archidy Picado. Pouco conheceu das glórias devidas a sua arte. Pouco se escreveu ou se pesquisou sobre sua obra pictórica ou…

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