Com uma vasta experiência no campo artístico, Archidy Picado, natural de Petrópolis, mas radicado há muito tempo no Estado da Paraíba, nos dá aqui, neste depoimento descontraído, dosado de sutil sense-of-humor, uma visão clara e envolvente da sua grande batalha no campo das Artes Plásticas.
Mesmo tendo vários títulos, ele declara ter verdadeira aversão a coleção de títulos. Há pouco tempo, foi contemplado com uma bolsa de estudos de arte no Centro de Artes da Faculdade de Passadena, Califórnia.
Archidy sempre está interessado na pesquisa de técnicas e conhecimentos de materiais, com os quais possa a vir – acrescenta ele – a aperfeiçoar sua forma de expressão ou comunicação estética.
De refinada cultura, ele sempre teve uma incomensurável capacidade de pesquisa, como que abstraindo as fronteiras das formas mais variadas de expressão: Música, Escultura, Pintura, Literatura, Cinema, etc., muito embora, sua grande paixão insista em esboçar-se no desenho e na pintura. Traços, técnicas e cores se confundem num estilo simples, mas de grande impacto visual. A pintura de Archidy nos dá uma sensação estranha e pujante da vida e das coisas que se perpetuam, que se eternizam.
Com a palavra o artista:
“O primeiro contato que tive com a arte, quando ainda não tinha 15 anos, foi uma exposição que vi no prédio onde hoje funciona o IPASE. Impressionou-me bastante o conjunto de quadros lá expostos.
Pouco tempo após, já aos 15 anos de idade, pintei minha primeira tela: uma paisagem da Fazenda da Graça, em Cruz das Armas, e as ruínas de uma velha igreja.
No entanto, a minha sensibilidade para o mundo dos traços e das cores já se fazia sentir desde os 11/12 anos, quando meu maior envolvimento passou a ser as revistas em quadrinhos. Lembro-me muito bem que recebia diariamente de minha mãe o dinheiro do transporte e do lanche. E que, num pequeno “desvio de verbas”, caminhava a pé até a escola e, com o dinheiro destinado ao transporte comprava duas ou mais revistas. Porém meu alumbramento no mundo do desenho, partiu do “Príncipe Valente”.
Na conversa, Archidy lembrou um dos melhores artistas-pop norte-americano, ROY LICHTENSTEIN, que encontrou como fonte de inspiração as estórias em quadrinhos: “Colocava na ampliação desses quadrinhos enormes vilões, com dizeres próprios”.
“Outro grande incentivo, digamos meu segundo despertar, foi através das Edições Maravilhosas, onde se encontravam, nas contracapas, reproduções de pintores brasileiros, como Pedro Américo, Rodolfo Amoedo, etc.”
BACH
“Em 1950, vi uma exposição dos fundadores do Centro de Artes Plásticas da Paraíba. Nela estavam expostos quadros de Hermano José, Léon Clerot, Olívio Pinto, José Lyra e outros. Foi a primeira vez que tive contato com Hermano. Hoje ele diz que, naquele dia, eu estava de calças curtas… Era, portanto, um menino que dias depois o procurou para inscrever-se no Centro. Perguntei então a ele qual era a anuidade. Respondeu-me: A mensalidade é de Cr$50,00. Era eu então um guri que não distinguia anuidade de mensalidade.
Nos anos de 1952 a 1956, Hermano José exerceu uma grande influência sobre todos nós. Em torno dele nasciam valores. Reuníamo-nos em sua casa, todos nós jovens de sensibilidade: Clemente Rosas, Celso Almir (poetas); João Ramiro Melo e Vladimir Carvalho (cineastas); Breno Mattos, Ivan Freitas (artistas plásticos), entre outros.
Ouvia-se BACH. E estranhava-se. Era todo um mundo novo que se apresentava para nós. Um dia, Fernando Pereira, como sempre irônico, portava um disco, se dizendo fanático por BACH (foi o que entendemos). Mas, logo que tocou, o que ouvimos foi música de “gafieira”. Ao ser indagado, justificou-se: “Mas, e não é música de BAR?”.
Lá discutia-se sobre arte e cultura. Lia-se livros europeus, tais quais “A vida trágica de Van Gogh” e “Um gosto e seis vinténs” de Somerseth Maughan, etc.
LA CUMPARSITA
Em 1954, foi fundada uma espécie de filial do Centro de Artes Plásticas, o Atelier Eliseu Visconti, que funcionava no antigo Conservatório, na Avenida General Osório. Esse Atelier foi fundado por alguns dos alunos do Centro de Artes Plásticas: Breno, eu, Cantalice, etc. Em 1956, Hermano José foi para o Rio.
Em casa, encontrei ambiente para desenvolver minha sensibilidade artística. Meu pai, Francisco Picado, foi o primeiro regente e fundador da Orquestra Sinfônica da Paraíba. Estudei, por orientação dele, piano. Minha professora foi Osíris Botelho. Ela achava que eu tinha muitas possibilidades. Apresentei-me numa audição de alunos do Conservatório. Nesta época tinha 12 anos. Meu pai era muito exigente, de tal modo que me desestimulou. Lembro de uma apresentação no Plaza, onde deveria tocar, segundo a programação, a Sonatina de Beethoven. A determinada altura da apresentação, pensei que ia cair do palco, que era inclinado. Tropecei e esqueci a música. Imediatamente emendei com um tango argentino, La Cumparsita. Embora bem aplaudido, meu pai revoltou-se e me disse que nunca mais eu faria qualquer apresentação. Foi o fim da minha carreira de músico. Eu então tinha 13 anos.
CONTINUAÇÃO DE MIM MESMO
Minha mãe era protestante convicta. Dela herdei certo misticismo. Mas, enquanto isso, meu pai ia para missa com um rádio de pilha. Por conta dela fui organista de uma igreja protestante. E, muitos anos depois, já adulto, fui organista oficial dos Mórmons.
Em 1957, fui para o Rio. Lá estive em contato com pintores célebres, tais como Milton da Costa, Ivan Serpa (professor do MAM), Edson Motta, Benjamim Silva, etc.
No Museu de Arte Moderna, fiz uma espécie de vestibular. Coordenava esses trabalhos, Edson Motta. O vestibular consistia em executar três desenhos de imaginação. Os concorrentes podiam ou não ser artistas. Ao meu lado, no dia da prova, estava um aluno que desenhava com perfeição. Com essa observação, senti-me logo diminuído. Mas, no entanto, ouvi quando Edson Motta disse para ele: “Meu amigo, aqui não é seu lugar. Quer um emprego num escritório de publicidade? Eu arrumo”. Senti minha derrota por antecipação. Não sei até hoje a dimensão da minha alegria quando, ao analisar meus desenhos o Professor Motta, concluiu: “Você está fixado num determinado tema. Mas isso você supera. Na próxima aula traga os pincéis e comece a pintar”.
Aquela confirmação foi para mim primordial. Hoje sei que não posso deixar de fazer uma coisa que faz parte do meu eu. Pintar é uma continuação de mim mesmo.
ARTES PLÁSTICAS
Comecei no Rio, na mesma época, a freqüentar o atelier de Benjamim Silva.
Neste período, no MAM, Hermano José foi meu colega, embora já fosse um artista de renome. Éramos alunos de Ivan Serpa. E vi uma exposição do movimento concretista no Ministério da Educação, no Salão Nacional.
Em 1958 voltei para João Pessoa e me entrosei no grupo de Vanildo Brito, quando àquela época, liderava o Correio das Artes. O pessoal era muito ativo. Produzia-se muito.
Em 1962 fui chamado pelo Reitor Mário Moacir Porto, para criar o Setor de Artes Plásticas da UFPB. Fui procurado pelo jornalista Wills Leal, que me trazia a proposta do Reitor. Devia procurá-lo, pois o meu nome estava indicado para o Setor de Artes Plásticas e o de Linduarte Noronha, para o de Cinema.
Como o projeto era de grande vulto, expliquei-lhe que não poderia fazer tudo sozinho. Convidei para trabalhar comigo: Raul Córdula (Pintura), Breno Mattos (Escultura), Vanildo Brito (História da Arte), Arthur Cantalice (Perspectiva e sombra). Eu me encarregaria de, além da organização do setor, lecionar Desenho Artístico.
Desde 1962 ensinei na UFPB, em cursos livres; só em 1965 fui contratado para lecionar Inglês. Em 1978, fiz concurso público para Professor Assistente de Literatura Inglesa e obtive aprovação. Atualmente ensino História da Arte no Departamento de Artes e Comunicação.
Para mim, a atividade de professor tem atropelado a minha vida artística.
Correio das artes
João Pessoa, 14 de fevereiro de 1982
Depoimento concedido por Archidy Picado a Cláudio Limeira
(Revisado: Madalena 14.04.09)
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