O ECLETISMO NA ARTE

5–7 minutos

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Archidy Picado 

Ao longo da história da arte, verificamos o aparecimento de “ismos” que representaram tentativas humanas de estabelecer cânones estéticos que pudessem definir, de modo absoluto, os caminhos da arte. Na realidade, todos estes movimentos não passaram de módulos artísticos os quais emergiam através de estilos mais ou menos pessoais, para logo desararecerem.

O mundo da velocidade já havia sido anunciado pelo grupo futurista de Marinetti, o qual afirmara dogmaticamente, que o novo conceito de beleza seria a expressividade estética de um automóvel em velocidade, sobre a inferioridade de uma obra de arte estática como a célebre Vitória de Samotrácia. O “futurismo” representava a “eterna velocidade onipresente”. Teria sido, então, o “futurismo” a mais eloqüente expressão da época? Seria, analogicamente, arte

Pop, a conceitual, a psicodélica, o verdadeiro reflexo da contempo-raneidade? Quem teria proferido a última palavra em relação à arte? Inútil tem sido esta busca empreendida por todos os homens em atingir um ideal estético. Improfícua tem sido a desesrerada tentativa de se encontrar uma fórmula que aponte o real objetivo da arte. Presenciamos estarrecidos artistas ou experts que se trans-formam, de um dia para o outro, em “legítimos” codificadores e

• que se atrevem a pontificar a única saída para o impasse em que a arte se encontra – seria a arte ou os artistas?

Marcel Duchamp, o pai dos ready made, o autor de obras de arte que se originavam de objetivos já existentes, de partes de sucata, do famoso e controvertido quadro da Gioconda de bigodes, cujo título é um palavrão; Duchamp que inventou o teto de sacos de carvão, que guardava, por amor a sua querida Paris o ar daquela cidade numa ampola de vidro, este artista, realizou praticamente tudo que hoje se repete num panorama desalentador nos principais centros culturais do mundo.

Recentemente tivemos o Salão de Arte Moderna do Rio, que resolveu premiar um arrumador de pauzinhos que teve a imperdoável audácia de nos apresentar como novo, um amontoado de ripas sofrivelmente dispostas em espiral. Um outro agraciado com um grande prêmio, limitou-se a carimbar com o número cinco toda uma tela. Felizmente ainda há no país, homens lúcidos e compe-tentes, como Roberto Pontual, crítico de arte do Jornal do Brasil, que denuncia a fraude num inteligente e esclarecedor artigo: “Desas-tres de um Salão”.

Enquanto isso acontece, Volpi, reconhecidamente o maior pintor vivo do Brasil, utiliza métodos e técnicas tradicionais, já há muito conhecidas dos antigos pintores da Idade Média. Sem se preocupar em ser um inovador, trabalha humilde e silenciosamente em seu atelier, criando uma arte, embora singela, poderosamente expressiva e de conteúdo emotivo e intelectual, profundamente denso. Uma arte deste nível, certamente não desaparecerá, como sói acontecer com a maioria dos “ismos” que se extinguem e falham, como propostas definitivas do problema estético. Se o “cubismo”, por exemplo, tivesse sido uma verdade intocável, Picasso não o teria abandonado por um figurativismo um tanto tradicionalista ou conservador, não menos revolucionário e que não deixou de marcar indelevelmente sua passagem pela história da arte. Influências ligeiras de um Lautrec ou de um

Van Gogh, da arte africana e até mesmo do classicismo greco-romano, não impediram Picasso de criar o seu próprio e inconfundível estilo. A “Guernica” executada por ele, indica de modo insofismável que as mudanças evolutivas da arte, não deveriam ser apenas de natureza formal, mas conteudística, uma vez que não podemos dicotomizar a obra de arte, seccioná-la em partes distintas, pois tais elementos deveriam se encontrar afetivamente amalga-mados. Picasso dizia que não procurava soluções, mas, encontrava-as.

Não seria sensato partirmos numa aventura inconsequente em busca do “ouro”. A herança da arte se acha ao alcance de todos. Não é privilégio de ninguém. Basta que nos despojemos dos preconceitos e dogmatismos e nos coloquemos diante do fenômeno estético em atitude receptiva e participante. É através dos sentidos humanos que o mistério da arte se revela. “L’Arte é cosa mentale” afirmara Leonardo, mas o processo intelectivo, intelegível, cognoscetivo da fruição estética se realiza pela intuição humana.

Creio que a morte dos “ismos” já foi declarada. Podemos nos referir a tais escolas” panegiricamente, num respeitoso necrológio. Hoje, concentremo-nos numa atividade artística, que pouco importe os meios, – sejam tradicionais ou contemporâneos – contanto que permaneçamos fiéis a nos mesmos, que acreditemos na legitimidade de nossas mensagens quaisquer que sejam, e que também possamos reconhecer a nossa relatividade em nossa humilde posição no uni-verso. Porém, orgulhemo-nos de nossa participação na magnífica obra da natureza, mas não esqueçamos de nossa transitória condição existencial, numa jornada progressiva em direção a um absoluto desconhecido e talvez inalcançável.

A ameaça de uma catástrofe, de conseqüências imprevisíveis, paira sobre o mundo de hoje. Há uma inquietação generalizada em todos os lugares do mundo. A ação terapêutica da arte – já referida magistralmente por Julian Huxley – provavelmente seria a única solução para o impasse em que se encontra a humanidade. Santo Agostinho afirmara que a beleza residia na harmonia. Por mais aparentemente caótica que pareça uma obra de arte, ela terá necessariamente de ser harmônica e equilibrada. Piet Mondrian demonstrara, não somente através de sua arte fundamentalmente geométrica, mas através de suas palavras: “Somente a ordem tem valor e importância, o resto é secundário”. Já são Tomás de Aquino declarara: Pulchra sunt quae visa placent. Croce advertia que o cultivo da sensibilidade deveria ser a principal atividade do homem, pois esta é positivamente geradora de uma energia espiritual vasta e inesgotável, da qual não deveríamos prescindir sob pena de alienação e conseqüente desumanização.

A verdadeira ciência não exclui a arte, mas toma-a para si e a enriquece com os seus recursos. Arte, Ciência e religião se unem num autêntico humanismo.

O grande filósofo Feuerbach afirmava que ninguém estaria nos domínios da arte, sem que possuísse um estado de espírito sereno e tranquilo.

Vários e divergentes têm sido os conceitos emitidos por pensadores como Santayana, que achava que a atividade artística seria subjetiva e irracional; Hegel que a realidade da arte existia essencialmente na mente humana; Platão que o belo se encontra em alguma região distante e a qual só nos seria permitido uma relativa aproxi-mação. Para alguns, a arte deve refletir o trágico e o patético, enquanto para outros ela seria pura fruição estética, nada mais.

Evidentemente, tornar-se-iam vãs as tentativas de se alcançar, através dos mais sofisticados e aperfeiçoados métodos, a essência da arte, sua verdade, pois esta é intangível e perderia o seu mais alto significado se fosse totalmente dissecada por nosso frio enten-dimento.

‘Há, entretanto, artistas e teorizadores da arte que pregam a função panfletária da criação estética. Talvez seja bom lembrar que os “dadaismos” já têm mais de sessenta anos e por conseguinte,

“não há nada de novo no front”. Os que insistem em agir assim, revelam a decadência em que se encontram e se disfarçam em arautos ou pontífices de uma espécie de antiarte que não tem absolutamente nada em relação com a teoria científica da anti-matéria.

Deixemos que o tempo exerça o seu julgamento imparcial e definitivo sobre a herança cultural do nosso século.

Revista CONVIVIVM

Revisado: Carol – 10.10.2023

Archidy Picado  Ao longo da história da arte, verificamos o aparecimento de “ismos” que representaram tentativas humanas de estabelecer cânones estéticos que pudessem definir, de modo absoluto, os caminhos da arte. Na realidade, todos estes movimentos não passaram de módulos artísticos os quais emergiam através de estilos mais ou menos pessoais, para logo desararecerem. O…

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