O OBSERVADOR

8–13 minutos

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Archidy Picado

Eu já tinha atravessado a avenida, quando o temporal desabou sobre a cidade. Esperei uns quinze minutos debaixo de um prédio velho até que a chuva parasse. Enquanto estive ali observei cuidadosamente os transeuntes. Eram na maioria jovens, que se deixavam conduzir pelo simples deslumbramento, do espetáculo atraente do dia-a-dia. Os poucos velhos ou os de meia-idade, conversavam ou olhavam os cabeçários dos jornais, em busca de algo novo que os estimulassem. Percebi tudo isto em muito pouco tempo. Entretanto, ao caminhar pelas ruas, comecei a refletir filosoficamente a respeito daquela fatia do grande bolo da existência. Dirigi-me até a praça, e como se estivesse ancorado numa ilha, libertei-me um pouco dos outros, a fim de conhecê-los melhor. De onde me encontrava as palmeiras emitiam um som agradável, com suas folhas ao vento, e felizmente podia ouvi-las sem que o barulho do tráfego me impedisse. Pensei em todas as praças do mundo e veio-me a ideia que deveriam ser todas iguais. Verdadeiros oásis no meio do deserto humano. Não mais me preocupava com os meus semelhantes. Era agora a natureza que me invadia o espírito. Recordei-me das mangueiras da minha infância. Também dos cajueiros da praia, de onde eu extraía uma resina, a fim de usar como cola para a minha coleção de selos. Todo o panorama havia mudado. Isto, em quase trinta anos. Pensando bem, era há muito tempo atrás. As coisas tinham de sofrer uma transformação. Já não mais havia aqueles sítios maravilhosos que nos serviam de palco para brincadeiras. Logo me conscientizei que o fim do século estava próximo. As tais transformações tinham de ocorres rapidamente. E foi o que aconteceu. Eu me senti um estrangeiro. O sentimento de se ser estrangeiro, eu próprio já havia tido. Foi exatamente nas ruas de Bogotá que pela primeira vez senti não pertencer àquele lugar. Depois, foi no México onde me demorei mais -refiro-me à primeira viagem que fiz ao exterior – quando já me habituara a ser um alienígena, e finalmente na Califórnia, o imenso estado norte-americano, onde conheci Jim e Al Steve. O mundo, contudo, permanecia o mesmo. Os homens tinham as mesmas preocupações. Se ocupavam das mesmas coisas, embora falassem idiomas diferentes. Podia haver alguma mudança de clima ou de costumes, mas basicamente, era o mesmo habitante do planeta, com todas as invencionices, as mesmas ilusões – abençoada fantasia – desapontamentos e esperanças. 

Levantei-me e como morava próximo ao centro, fui direto ao meu apartamento de solteiro. Sim, pois, eu vivia só. Nem mesmo um cão em minha companhia. O aparelho de televisão se interpunha entre mim e os acontecimentos e comodamente via protegido da ferocidade humana. Apenas ele me fazia companhia e para não ser molestado, nem mesmo um telefone quis que fosse instalado,  para que pudesse fruir uma certa solidão gostosa. Um psiquiatra conhecido – notem que não chamo de amigo – me dissera uma vez que eu era um tipo leptossomático e tendia a melancolia. Talvez me achasse um esquizofrênico. Sua classificação psicológica pouco me importava. Como a maioria deles supunha que o número de alienados sempre crescente e que quase todos deveriam se submeter a um repouso terapêutico. Eu, entretanto, era e sou um adepto da auto-análise. Mantenho um diário de meus atos e ideias.  Para não descuidar de minha aparência, recorro ao espelho. Sei que ainda exerço uma atração física pelo sexo oposto. A mulher é um ser importante nas nossas vidas, pois foi através delas que viemos ao mundo. Não estou certo, porém, se deveríamos agradecer-lhes por isso, se é mesmo possível voltarmos ao nada. Agora, vi claramente uma clareza até certo ponto desagradável que me achava dentro do elevador, apertado entre desconhecidos. Quem eram os que não me diziam nem mesmo bom dia? Saí do elevador e entrei no meu refúgio – é assim que chamo o lugar onde moro. Peguei um dos liros da estante ao acaso. Sabia que qualquer um me interessaria. Olhava os títulos e autores com vívido deleite. Minha biblioteca, embora pequena – não mais do que cem volumes – ajudava a completar o ambiente no qual mergulhava como numa banheira de água morna e apaziguante. O meu apartamento ficava no último andar e me punha a salvo da massa a se movimentar como formigas lá embaixo. Já me habituara a ponto de não mais sentir vertigens ao lançar a vista pela janela. Do mesmo modo, não tinha qualquer sentimento de claustrofobia, pois o meu refúgio era amplo demais. Havia bastante espaço para abrigar mais cinco pessoas. Mas felizmente não havia mais ninguém além de mim mesmo. Acendi o cachimbo e dei algumas baforadas. Ele me fazia perceber que segurava algo sólido. Aquele objeto poderia durar mais do que minha efêmera existência – não seria melhor chamar peregrinação? – e, além disso, me proporcionava um certo descanso. 

Havia alguma coisa naquele edíficio de apartamentos que eu não podia suportar; uma verdadeira espionagem do chefe da portaria. Quem quisesse qualquer informação a respeito dos condôminos, era bastante indagar-lhe e ele fazia um relatório completo. A mim, não me interessava saber nada sobre os outros. Fora Sartre, autor que eu lera quando jovem e que teria exercido uma determinada influência sobre minha personalidade em formação, quem afirmarar ser os outros o inferno. Hoje, entretanto, não tenho muita certeza disso. Apesar de enormes defeitos de caráter, egoísmo e perfidia, creio nas virtudes humanas. O grave é não sabermos gostar verdadeiramente das pessoas. 

Vira no aparelho de televisão as notícias que eram transmitidas numa rapidez incrível. Acontecimentos nos lugares mais longínquos da Terra passavam diante de meus olhos como um relâmpago.  Mal dava-me tempo para pensar. Os russos atacavam o Afeganistão, a paradoxal  crise econômica num país socialista, a guerra de El Salvador – ouvira um salvadorenho falar que, em vez de entregar o país a União Soviética, era preferível entregá-la aos Estados Unidos – os índices de inflação divulgados pela Fundação Getúlio Vargas, as promessas e a firme convicção do presidente de reestabelecer a democracia, a confusa situação dos partidos políticos no Brasil, violências nas grandes metropóles, etc. Que mais poderia me oferecer a TV? Novelas – o desempenho de Fernanda Montenegro, José Wilker, Tarcísio Meira e outros mais – e filmes produzidos pelos norte-americanos. De qualquer forma eu me distraía e quase não saía para ir ao cinema – outrora era a chamada sétima arte que me empolgava – a não ser quando estava passando um filme muito bem realizado de um cineasta famoso. 

Sinto-me a vontade em meu pequeno mundo. É preciso que se construa um ambiente no qual haja tudo aquilo que precisamos ter de modo a não sermos forçados a procurar em vão noutra parte. Retornei ao diário. Fiz algumas anotações rápidas. Eram aforismos em frases bem curtas. Escrevi: “O homem é dono de seu destino” e coloquei ao lado algo paradoxal: “O homem é um joguete da sorte” e mais algumas coisas como: “O homem pode não conhecer a sua própria morte”, “a prudência é a maior virtude”, “A verdadeira religião é a incondicional fraternidade”. 

Esqueci-me de me referir a uma senhora de meia-idade que, uma vez ou duas, costuma vir até o apartamento a fim de fazer a limpeza. Não consigo ficar em casa quando esta senhora começa a colocar tudo de pernas para o ar. A única coisa que se salva de sua obssessiva atividade é a minha pequena biblioteca. Esta, juntamente com a escrivaninha, é intocável. Tenho certeza que são estes autores tão cuidadosamente selecionados por mim que constituem meus verdadeiros amigos. Falam através de seus escritos o que realmente me interessa e somente quando eu assim o desejo. 

Infelizmente minha sagrada solidão foi interrompida pelo toque da campainha elétrica e suspeitei logo de quem se tratava. Olhei pelo olho mágico e verifiquei que minha suspeita tivera sua razão de ser. Abri a porta e me deparei com um estranho conhecido meu. Tínhamos nos conhecido quando éramos jovens de dezessete anos. Eu as voltas com meus desenhos e ele, com uma modalidade artística de certo modo superada e de extrema dificuldade de realização, a ópera. Sim, se tratava de um tenor. Pedi-lhe que entrasse e nos dirigimos até o meu gabinete. Perguntou-me se me incomodava. Afirmei-lhe que não. Apenas me distraía com meus cachimbos e devaneios. Notei que ele estava visivelmente nervoso. Sentava-se para logo depois se erguer novamente e andar passos largos de lá para cá. Perguntei-lhe o que lhe havia acontecido. Respondeu-me que estava desesperado. Savia que o tempo passava célere e se sentia um tanto velho para continuar seus estudos de canto. Encontrara um ótimo professor italiano, mas este lhe dissera que, se quisesse ocupar algum dia o lugar de solista no Municipal do Rio, teria de se dedicar de corpo e alma aos exercícios vocais. Teria de aprender a colocar bem as notas e emiti-las suavemente sem quase nenhum esforço. O que faria então? perguntou-me, sem esperar uma resposta. Já havia se dirigido às autorisases para solicitas alguma ajuda, mas tudo resultara inútil. Ponderei com ele que a razão de seus contínuos esforços para realizar o seu sonho, talvez não tivessem seguido um rumo certo. Além disso, disse-lhe que sem muita coragem e determinação, nada poderia ser feito. Expliquei-lhe que, se este era efetivamente o seu objetivo, teria que se aproximar dos homens do poder. Afirmara-me categoricamente qie isto era impossível. Não iria se curvar diante de ninguém. Ofereci-lhe um Whisky o qual foi tomado de um só gole. Sabia que ele não tinha o costume de ingerir qualquer espécie de bebida alcoólica. Também não fumava porque tinha de manter a sua boa forma física e psíquica – esta última, não creio que a possuísse de maneira absolutamente satisfatória. Contudo, se não fossem os seus “grilos”, os artistas provavelmente não se sentiriam atraídos pelo mundo da imaginatividade. Efetivamente o mndo da arte é um mundo de fantasias que, sem dúvida, fazem parte integrante da subjetividade humana. Mas Estéfano – pois era assim que se chamava – parecia confundir muitas vezes a realidade com o sonho. Vivia tão intensamente o seu amor pela arte que nos dava a impressão de conduzir sua vida como uma personagem de uma ópera de Verdi. Falava-me com entusiasmo sobre os grandes intérpretes da música vocal. Concordou comigo que a ópera era uma arte de difícil montagem, já que necessitava da colaboração de praticamente todas as outras. Lembrei-lhe que ela surgira durante o absolutismo para entreter a realeza e que naquele tempo a corte vivia na mais completa ociosidade e no mais absoluto luxo. Lembrei-lhe também que no outro lado ele nascera e vivera grande parte de sua vida numa região que somente agora emergia de um caos artístico e cultural. Estéfano me escutou por algum tempo mas logo retornou à sua inquietação em encontrar uma saída para o seu impasse. Finalmente me disse que se algum dia tirasse na loteria, haveria de realizar todos os seus ideais. Despediu-se de mim – Estéfano não conseguia ficar parado em algum lugar por muito tempo – e desapareceu como um fantasma. Encontrei-me a examinar novamente os cachimbos que jaziam sobre a mesa enquanto escolhia um outro para continuar a fumar. Este era um de marca estrangeira e de ótima qualidade. Todavia o fumo era nacional e achava-o melhor do que o norte-americano. Era fabricado na terra que eu casualmente nascera. Comecei a pensar naquela bela cidade, de clima tão agradável – pois sempre detestei o calor – e daquele conhaque que tomara servido portão encantadora dama de olhos azuis tão raros na região tropical do Nordeste. Talvez pudesse, um dia, quem sabe, viver ali os últimos anos de minha existência. Por enquanto não, pois a minha missão na província ainda não havia terminado. Que missão? Poderiam me perguntar e então eu diria que cada um de nós tem por obrigação o desempenho de nossos papéis, os quais nos foram confiados por um destino superior. Eu também deveria cumprir com o meu dever. Foi refletindoo acerca disso que decidi me tornar mero espectador do mundo e de seus incríveis habitantes.

Publicado no Correio das Artes, em 04.03.84

(Revisado: Carol – 10.10.2023)

Archidy Picado Eu já tinha atravessado a avenida, quando o temporal desabou sobre a cidade. Esperei uns quinze minutos debaixo de um prédio velho até que a chuva parasse. Enquanto estive ali observei cuidadosamente os transeuntes. Eram na maioria jovens, que se deixavam conduzir pelo simples deslumbramento, do espetáculo atraente do dia-a-dia. Os poucos velhos…

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